O debate sobre regulamentação da maconha tem avançado em todo o mundo. A ideia de que a proibição é um modelo que não funciona é recorrente nos debates a respeito do assunto. Talvez uma das grandes responsáveis na mudança do pensamento de uma parte da sociedade tenha sido a internet, além da militância antiproibicionista, é claro. Foi através do espaço virtual que as pessoas tiveram acesso a um conteúdo mais honesto sobre o tema, já que, de modo geral, a mídia tradicional é conservadora, principalmente no Brasil.
Ilegal, filme de 2014 de Raphael Erichsen e Tarso Araújo, surge dentro desse panorama. O longa, diferentemente de outras produções brasileiras sobre o assunto, como Cortina de Fumaça (2011) e Quebrando o Tabu (2011), dedica todos os seus 82 min. ao debate sobre regulamentação dentro da perspectiva do uso medicinal da maconha. A produção faz isso através da história de mulheres mães de crianças com algum tipo de doença em que o CBD, composto da cannabis que não "dá barato", atua de maneira fundamental na saúde dos pequenos.
Apesar de ser bem claro à perspectiva do debate sobre a ótica do uso medicinal, o documentário perde muitas oportunidades de aprofundar e de transversalizar com a perspectiva do uso religioso, cultural, recreativo da planta e com o debate contrário a guerras às drogas – aos pobres – causados pela proibição.
A cena da conversa entre duas mães com o deputado Jean Wyllys é sintomática. Nela, uma das personagens fala sobre o sentimento egoísta (compreensível e justificável) de ver sua filha bem, já que o CBD por vezes zerava as convulsões que chegavam a mais de 40 por semana. Em seguida, o deputado realiza uma fala certeira sobre a importância do debate libertário e dos males que a proibição gerou à nossa sociedade, mostrando que o debate sobre o uso medicinal e libertário não são desconexos, pelo contrário, dialogam e precisam andar juntos.
O único momento no qual uma situação tranversaliza com outros setores do pensamento é durante as sequências da marcha da maconha. Nesse tipo de manifestação, todas as óticas sobre o assunto são bastante harmoniosas.
De um modo geral, o filme opta por uma zona de conforto estético, narrativo e discursivo desconfortante. A trilha sonora apela para o emocional do público na tentativa de aproximá-lo do sofrimento das personagens. Além disso, o documentário tem caráter muito televisivo e didático. Talvez, isso seja positivo no diálogo com o público mais conservador e leigo sobre o assunto, mas para os "macacos velhos" do antiproibicionismo, Ilegal pode ser apenas um lugar comum.
Outra coisa que, particularmente, me incomoda bastante no filme é a escolha dos personagens. É super válida a presença daquelas mães, porém a perspectiva de uma família de classe média, branca e de certa forma privilegiada, diminui as possibilidades de problematização do tema. Fico imaginando como seria se os diretores recorressem às mães da periferia que têm filhos com doenças parecidas com as apresentadas, às senhoras de camadas sociais mais humildes que fazem o uso da maconha através do chá para alívio das dores, às pessoas com problemas de insônia e com câncer que recorrem ao tráfico para amenizar os seus incômodos.
A contribuição pedagógica de Ilegal é super válida, apesar de pouco arriscada. O documentário pode abrir cabeças e dialogar melhor com camadas da sociedade mais preconceituosas quanto a temática, doutrinada com a ideia demonizada da maconha, através da desonestidade intelectual das campanhas contra as drogas no Brasil e do ideal conservador das mídias tradicionais. Mais do que nunca, é necessário um debate honesto sobre as drogas, apontar soluções a caminho da redução de danos e abrir os olhos da sociedade brasileira que já se acostumou e acha normal a guerra promovida pelo estado. Ilegal contribui nesse sentido.
Denunciado pela sogra, como uma retaliação as agressões que cometia a própria namorada, o música Cert do grupo de rap Cone Crew Diretoria, trouxe novamente para o debate público a política de drogas no Brasil. Encontrado com quatro pés de maconha em seu apartamento, o artista também está sendo acusado por tráfico de drogas. Tratando-se de um assunto tão delicado e que ainda é um tabu para a maioria dos brasileiros, nesse sentido, o rap cumpre o papel de vanguarda na exposição da temática para o público. Porém, ao mesmo tempo, pouco se repercutiu as acusações de agressões a sua companheira. Como uma indignação seletiva, a repercussão da história tem levado ao debate a temática antiproibicionista, super importante, mas não expõe nada sobre a violência contra a mulher. A Cone Crew Diretoria, influenciados diretamente pelo Planet Hemp, apresenta uma posição política libertária, porém, ao mesmo tempo, o grupo apresenta serias contradições ideológicas. Característica comum a muitos grupos de rap no Brasil.
O Rap nacional ganhou projeção ainda na década de 90. Grupos como o Racionais Mc’s e o Facção Central são alguns dos principais porta-vozes do estilo na década. Indiscutivelmente esses grupos trouxeram aos negros das periferias brasileiras o protagonismo da sua própria história. Negro Drama, por exemplo, pode ser considerado um hino para as favelas do Brasil. Apontando as desigualdades sociais e injustiças que sofriam a população carente brasileira, o rap surgiu naquele momento como ferramenta fundamental contra o racismo e o preconceito social.
“Não foi sempre dito que preto não tem vez?
Então, olha o castelo e não
Foi você quem fez, cuzão?”
Negro Drama – Racionais Mc’s
Racionais Mc's
Na mesma década de 90 surge no Rio de Janeiro, o Planet Hemp. Alvo de dezenas de polêmicas na época, o grupo era repreendido pelos conservadores devido as letras das suas músicas que giravam em torno da legalização da maconha, um tema ainda mais tabu naqueles tempos. Nesse sentido, o rap se coloca a frente do seu tempo. Assumindo um papel progressista e de vanguarda trazendo, através das letras do Planet Hemp, um debate que só começou a desenvolver a poucos anos no Brasil, cumprindo um papel fundamental para o antiproibicionismo no país.
“O álcool mata bancado pelo código penal
Onde quem fuma maconha é que é o marginal
E por que não legalizar? E por que não legalizar?
Estão ganhando dinheiro e vendo o povo se matar”
Legalize Já – Planet Hemp
Com esse caráter contra-cultural atrelado ao fato vir da periferia, o rap cresceu sendo um produto marginalizado. Prisões, como do artista Cert, são comuns na história do rap brasileiro. Em 1997, o Planet Hemp foi preso acusado de apologia às drogas. O Racionais Mc’s também já foram presos em 94 acusados de incitar o crime e a violência. Por motivos parecidos, membros do Facção Central também foram presos.
De fato, o rap é uma ferramente militante super importante para o movimento negro e antiproibicionista. É uma resposta aos opressores. Porém, o estilo, não está livre das contradições. Pelo contrário, carrega uma série delas. Dando um caráter contraditório a voz dos oprimidos e os jogando no banco dos opressores.
O mesmo Cone Crew Diretoria no final do ano passado, por exemplo, protagonizaram um episódio lamentável nas redes sociais. O membro conhecido como Maomé postou em seu facebook uma frase extremamente machista e homofóbica. Na publicação ele critica mulheres que trocam likes e seguem de volta, afirmando: “Deveria tomar uma surra dentro de casa pra aprender a ser mulher”. Em seguida ele crítica as mesmas práticas no sexo masculino com a frase: “Já os barbados, … NA MORAL …. Vcs são mais viados do que quem dá o cú !!! Tenho nojo de vocês”. Todo esse discurso também é reproduzido em suas letras. Não só discursos pejorativos a liberdade sexual da mulher ou orientação sexual de uma maneira geral, como em Falo Nada e Chama os Mulekes, o Cone Crew reproduz normatividade e senso comum e faz vista grossa ao status quo.
Em 2013, Emicida, rapper conhecido por levar a favela em suas letras, também esteve em um episódio machista em uma das letras do seu disco O glorioso retorno de quem nunca esteve aqui. Apesar de também ser autor da música Rua Augusta, um retrato humanizado de uma mãe solteira que se prostitui para sustentar o filho, Emicida escreveu a péssima Trepadeira. Na letra: “Minha tulipa, a fama dela na favela enquanto eu dava uma ripa / Tru, azeda o caruru / E os mano me falava que essa mina dava mais do que chuchu” (…) “Dei todo amor, tratei como flor / mas no fim era uma trepadeira”, deprecia uma mulher sexualmente livre e ainda aponta como punição a esse comportamento o uso da violência: “Merece era uma surra de espada de são jorge (é) / Chá de ‘comigo ninguém pode'”.
“Poupa nem os das antigas… logo um mordedor de fronha
Vai geral baixar a porrada no Pinóquio sem vergonha
Quebra o papo de cegonha que ele treme e solta as franga”
Falo Nada – Cone Crew Diretoria
Mas não é somente a nova geração que sofre essas contradições. O Racionais Mc’s apresenta uma série de letras com esses elementos. Em 1 por amor 2 por dinheiro, Mano Brown canta: “Quem é você que fala o que quer/ que se esconde igual mulher por trás da caneta/ vai Zé buceta, sai da sombra/ Cai, então toma! Seu mundo é o chão”. Na mesma música ele presta homenagem a sua raiz africana. Já em Estilo cachorro, o grupo conta a estória de um personagem masculino da favela com um certo poder aquisitivo e vida sexualmente ativa da seguinte forma: “Sexta, a Elisângela / Sábado, a Rosângela / E domingo é matinê, 16, o nome é Ângela”. Em outra parte canta: “Au au au au, não é machismo / Fale o que quiser, o que é, é / Verme ou sangue-bom tanto faz pra mulher / não importa de onde vem nem pra que, se o que ela quer mesmo é sensação de poder”.
Porém talvez a maior contradição fique na música Qual mentira vou acreditar. Nela, Edi Rock canta um dos melhores retratos do racismo cotidiano. Desde a abordagens policiais “Eu me formei suspeito profissional / Bacharel pós-graduado em tomar geral” a uma conversa com uma garota “Que tinha bronca de neguinho de salão / Que a maioria é maloqueiro e ladrão”. O discurso racista da garota em “Disse pra ‘mim’ não falar gíria com ela, (pode crer) / Pra me lembrar que não tô na favela”, logo se torna um festival de insultos e questionamentos a vida sexual da garota: “Correu a banca toda de uns playba / Que cola lá na área” e chega ao triste verso: “Eu já tava pensando em capotar no soco”.
Karol Conká
Além disso o Rap ainda é um espaço muito restrito aos homens. Apesar da repercussão dos trabalhos de rappers como Karol Conká, Flora Matos e Lurdez da Luz, a cena ainda permanece muito fechada em círculos masculinos e ao seu universo. O protagonismo feminino tanto em discurso como em artistas ainda parece estar em um horizonte distante. Em uma entrevista ao portal Virgula no ano passado Flora Matos afirma: “O meio do rap já foi muito mais machista, (…), mas ainda existe sim. Porém, nós mulheres, quebramos isso de uma maneira muito criativa. Não vira ‘treta’, não vira ‘diz’, vira música e inspiração”. Além disso, nas letras de Karol Conká são relatadas com frequência estórias de mulheres livres e independentes que contribui com o processo de emponderamento feminino.
É quase impossível desassociar o rap do discurso político. Com contradições ou na linha de frente das temáticas, o estilo se consolida como ferramenta artística capaz de gerar reflexão e questionar o senso comum. Seja nas manifestações de afirmação da negritude com Falcão, O Bagulho é Doido, do MV Bill, seja na expressão da liberdade feminina com Batuk Freak da Karol Conká, até o grito libertário de Usuário de Planet Hemp, no grito da voz da periferia em Nada como um dia após o outro dia dos Racionais ou no escracho das desigualdades de Convoque Seu Buda do Criolo, o Rap é compromisso e precisa superar as contradições para estar do lado daqueles que pretendem defender, isso também é um desafio da nossa sociedade.
O protagonista do filme Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância), Riggan Thomson (Michael Keaton), parece ser um daqueles atores marcados por uma única produção significativa em termos artísticos ou mercadológicos da sua carreira. Sucesso em décadas passadas interpretando um super-herói, Birdman, Thomson é um ator que tenta voltar ao estrelato com a sua mais nova produção, uma peça de teatro chamada: “What We Talk About When We Talk About Love”.
Dirigido por Alejandro González Iñarritu, de 21 gramas e Amores Brutos, a estória acontece em um teatro na Brodway e suas redondezas durante o final da pré-produção e apresentação do espetáculo. A montagem de Birdman é uma colagem de planos sequências como se fossem um só, parecido com o trabalho de Hitchcock em Festim diabólico, através de cortes disfarçados e diferente do filme francês Arca Russa de 2002, onde realmente não existem cortes. Um elemento estético interessante que o diretor adotou, em vários momentos do filme, é o uso de elipses (espaços de tempos) nas mudanças de sequências que variam entre passagem de movimentos de câmera pelos cômodos do teatro a mudanças sonoras e visuais nos ambientes.
Inãrritu tenta explorar um debate sobre as novas relações tecnológicas, artísticas e de comunicação no seu longa mais recente. Em muitos momentos a gente ouve referências à internet, ao jornalismo, ao mercado cinematográfico e artístico de um modo geral. Porém, ele parece se preocupar muito mais no próprio cinema, o que dá um caráter metalinguístico ao longa. Essa preocupação está principalmente relacionado com o personagem marcante na carreira do seu personagem principal, Birdman, um super-herói. O diretor tenta fazer uma dura crítica aos blockbusters do momento.
Mas, diferente da proposta de um Watchmen, com suas profundas reflexões, Birdman por vezes adota um discurso elitista e superficial. Apesar da ótima metáfora dos superpoderes do artista, que se sente um deus perante o resto dos homens, Iñarritu erra a mão ao fazer suas análises. Os objetos em que o diretor tentar fazer uma observação crítica são totalmente passíveis de um olhar mais apurado, porém ao não apresentar situações narrativas que apresentem justificativas e aprofundem o debate, o filme acaba trazendo uma temática interessante, mas com pouco argumentação.
O sub-título do filme já diz muita coisa: “A Inesperada Virtude da Ignorância”, pode soar de certa forma arrogante com o público assíduo por filmes de super-heróis, por exemplo. Isso dá uma acentuada ainda maior quando o personagem de Edward Norton, Mike, fala para Thomson: “um idiota nasce a cada segundo”, em referencia ao seu público, “as pessoas pagam por qualquer coisa”. Nesse direcionamento o filme ganha uma perspectiva parecida com aqueles pessoas de meia-idade saudosista que adoram falar como as coisas antigamente eram mais interessantes.
“Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)” é um filme rico imageticamente e traz contribuições visuais e narrativas interessantes. Os diálogos entre os personagens e as relações entre o protagonista e o restante do elenco são muito divertidas, além de uma construção interessante de todos os seus personagens que tendo muito ou pouco espaço na narrativa deixam claro as suas vontades, desejos e personalidades. Não será o trabalho mais aclamado de Alejandro González Iñarritu, Amores Brutos ainda continua sendo o meu favorito, porém pode ser lembrado como um filme relevante da sua carreira.
A família tradicional brasileira, como se conhece e como ela afirma ser, é aversa a qualquer tipo de progresso. Ela afirma que é preciso retroceder pelo bem da moral (cristã) e dos bons costumes. São conservadores e acreditam que o que alcançamos quanto as liberdades individuais trata-se apenas de “semvergonhice”. Enxergam a luta por direitos uma bobagem, totalmente ligados ao status quo e sem interesse algum de fazer uma crítica madura ao senso comum. Aqueles que chamam as feministas de feminazis e a luta LGBT de ditadura gay, para eles bandido bom é bandido morto, acreditam que o nosso país está virando Cuba e que uma maior participação do povo junto ao estado seria bolivariano demais. Eles sempre existiram, mas Junho de 2013 ecoou uma voz de indignação por progressos e eles apontaram como solução o retrocesso.
James Gandolfini interprete de Tony Soprano na série da HBO
Dizer que Tony Soprano, personagem principal da série The Sopranos da HBO e a “família tradicional brasileira” são iguais seria um tremendo exagero. Porém, não excluo a possibilidade de existirem perfis muito parecidos. A questão que tentaremos explorar nesse texto são as semelhanças entre a família do seriado e esse modelo de família propagandeado pelos conservadores.
The Sopranos acompanha o cotidiano da família que dá nome a série. O chefe, Tony Soprano, é “O poderoso chefão” ou boss da máfia que atua numa determinada região dos Estados Unidos. Com um bom filme de máfia, os Sopranos são descendentes de italianos e tem uma herança histórica baseada na corrupção, roubos e mortes. De origem cristã católica, preservam a moral e bons costumes tradicionais e patriarcais.
Tony Soprano é do tipo anti-herói. Ele é o personagem principal da narrativa e junto a uma maravilhosa execução da série, considerado uma das melhores produções da televisão de todos os tempos, conseguimos acompanhar e torcer pelo personagem. Mesmo suas motivações sendo escrotas e tortas, mesmo o personagem sendo corrupto, assassino, preconceituoso e oportunista, nos afeiçoamos a ele e queremos que ele se livre das atrocidades que comete.
A história é muito bem contada. Sem pressa, consegue mostrar um personagem complexo, suas frustrações e medos. Sim! Tony, apesar de manter escondido, frequenta a clínica de uma psicóloga. Essas visitas acontecem de forma sigilosa, afinal seria mostrar fraqueza demais para alguém tão alto numa hierarquia da máfia, totalmente ligado a figura do homem como ser insensível e “macho”, se consultar com uma psicóloga. O anfitrião Soprano brocha, tem medo, tem sentimentos (apesar de não demostrá-los com frequência), é corrupto e egocêntrico.
A primeira semelhança entre a família Soprano e a família tradicional é a herança privilegiada baseado em coisas não muita justas. Isso é claro na narrativa do seriado, a riqueza da família Soprano é baseada numa tradição mafiosa dos seus antepassados. No Brasil, temos o histórico claro de privilégios dos brancos e europeus, enquanto os negros africanos vieram para o nosso país para serem escravizados e após sua libertação não tiveram acesso as terras nem riquezas que geraram, dando origem às periferias brasileiras. Todo esse histórico, mesmo que de muito tempo, ainda reflete na realidade contemporânea. Aqui a semelhança entre essas famílias se destaca pela herança privilegiada, onde muitas vezes esses próprios indivíduos não observam esse detalhe e justificam a sua realidade de conforto com base na meritocracia.
Outro ponto interessante do seriado é o nível de hipocrisia do seu protagonista, muito semelhante ao clichê do dito “tradicional”. Em determinado episódio da segunda temporada, Tony Soprano, em um diálogo com sua mulher, mostra-se preocupado com as companhias do seu filho. No mesmo episódio, o boss havia matado um personagem pouco importante para o enredo. Não devemos analisar essa situação ao pé da letra. O que é interessante ressaltar aqui é que apesar de cometer erros, o personagem quer passar uma moral puritana, de acordo com seus interesses, para as outras pessoas.
Em todos os episódios, Tony mostra-se pouco preocupado com as questões coletivas. Além de considerar bobagem toda e qualquer forma de conhecimento social, afinal seu filho homem, que ele pretende manter uma herança de liderança de família, passa a questionar o senso comum. Tony Soprano também é machista, preconceituoso e homofóbico e tem como meta de vida preservar a família, apesar de trair com frequência a mulher com quem é casado.
Família Soprano
Tony Soprano, todos os seus aliados e sua família têm muita semelhança com o esse modelo de família tradicional. Modelo este que concentra a análise de sociedade baseado apenas na sua realidade que, apesar de cristã, tem poucas ações coletivas, que apesar de errar adora apontar os erros dos outros e que apesar de ter desejos e no íntimo fugir da normatividade, ainda bate o pé pela manutenção de algo superado.
Em outro episódio o Soprano encontra seu filho fumando maconha e cria um grande barraco por causa disso. Em momento nenhum, o personagem tem uma conversa franca sobre drogas com o filho, ao mesmo tempo em que é ligado diretamente ao tráfico de drogas daquela região. Na verdade, Tony, em nenhum momento, mostra-se preocupado em ter uma conversa franca e madura sobre temas polêmicos, pelo contrário, ela adora oprimir as coisas ao seu redor, enquanto muitas vezes tem ligações diretas com esse tipo de coisa.
Pelo perfil do personagem, podemos dizer com clara certeza que ele seria desfavorável a uma regulamentação das drogas e acredita que os seus usuários são vagabundos ou coisas do tipo. Como numa cena onde tem uma discussão séria com seu sobrinho pelo fato dele usar cocaína, porém ele é um frequente usuário de whisky. O que é muito semelhante com uma parcela da sociedade brasileira, por exemplo, cuja boa parte mostra-se contrária a uma legalização das drogas, mas costuma beber com frequência.
Tony também adora aproveitar das situações em seu favor. Odeia os policias que o perseguem, mas é camarada dos mesmos que aliviam as coisas para o seu lado. Seja através de propina ou não. Situação que parece semelhante com muitas situações do cotidiano brasileiro. Ao mesmo tempo que se ouve muita reclamação em cima das ações do estado, também observa-se diariamente as mesmas pessoas super atenciosas em encontrar brechas que as beneficiem.
Tony Soprano é do tipo de xingar os filhos por que eles xingaram. Também sofre de uma indignação seletiva, de acordo com os seus interesses. Acha-se no direito de ser um justiceiro, ao mesmo tempo que comete várias injustiças. Se incomoda com as pessoas que tentam mudar a realidade e tem uma forte personalidade egocêntrica e quer reproduzi-la. Tony Soprano não é um personagem comum por suas ações criminosas, mas é um personagem comum por sua personalidade centralizadora e egoísta, tão comum na dita família tradicional brasileira.
A evolução da humanidade como sociedade organizada tem relação íntima com a luta pelos direitos humanos. Foi esse processo de muitas datas que hoje podem garantir direitos mínimos a toda e qualquer pessoa. Para a sociedade, essas garantias, devem ser motivos de alegria, afinal estamos falando do direito de ser, de viver, das liberdades de pensamento, de crença e de expressão. Também estamos falando de democracia, não existe uma sociedade democrática se não há a garantia dos direitos humanos. De dignidade, direito ao trabalho, à educação, à saúde e à moradia. Infelizmente essa luta ainda não acabou. Em pleno século XXI ainda precisamos do empenho de muita gente para progredir como sociedade de direitos.
Na minha infância eu sempre acreditei que a humanidade vivia em progresso. Seja o que for, aconteça o que aconteça, as coisas mudavam e para melhor. Isso era certo para mim. Porém, infelizmente, a minha entrada no mundo adulto me provou outra coisa. As coisas podem piorar e a roda da evolução pode retroceder. Isso fica claro quando sujeitos como Silas Malafaia e Bolsonaro ganham visibilidade, quando discursos de “bandido bom é bandido morto” e “direitos humanos para humanos direitos” são repetidos sem reflexão, quando uma juventude universitária ganha uma ideologia reacionária e de ódio. Afinal, pra que (m) serve teu conhecimento?
Pixação nos muros da Universidade Federal de Sergipe (UFS) – Aracaju – SE
Essa juventude entende que a retirada de direitos de alguns é importante para que eles aprendam e se concertem, enxergam que o jovem que está na criminalidade é um vagabundo, um caso sem relação com a estrutura de sociedade que vivemos, tem visão maquiavélica, onde o mal são os “outros” e o bem somos “nós”. Mas quem somos “nós”? Quem são os “outros”?
Os “outros” são aqueles que durante toda a sua vida foram retirados seus direitos, os “outros” são aqueles sem dignidade, aqueles que não se enxergam entre “nós”, aquele que “nós” separamos com um muro, excluídos, aquele que “nós” olhamos feio quando está por perto. Infelizmente, a nossa sociedade é construída na base da indiferença. E é esse tipo de mentalidade que precisamos aprofundar. Retirar direitos para aprender a se colocar no seu lugar ou garantir direitos para uma sociedade melhor e mais igualitária?
Que aqui fica bem claro não ser um texto maquiavélico, como já dito antes. Ninguém aqui, em sã consciência, acredita que a retirada de direitos provocada pelo “outro” seja encorajada. A intenção é refletir sobre a estrutura de sociedade que vivemos e como essa estrutura precisa ser revolucionada para uma sociedade melhor. Deixo aqui a reflexão, da importância de romper com o olhar da tradição, da importância de não naturalizar nem legitimar ações de ódio, da importância de ajudar na construção dessa sociedade. Ela é possível!
Finalmente fiz a matéria de Fotografia digital na universidade. Gosto muito de fotografar e hoje compreendo que o ato não trata-se apenas do movimento físico de apertar um botão, mas também de ter a sensibilidade de fazer escolhas, principalmente a do ponto de vista. Sendo assim, esse post trata apenas da exposição das minhas fotografias. Espero fazer mais e quem sabe comprar um Canon legal, por isso parte 1 no título, para que acima de tudo eu tenha a convicção de que preciso expor meu olhar constantemente.
PS - As fotos foram feitas durante a preparação do Sarau debaixo, evento que acontece toda terceira terça do mês em baixo do viaduto do DIA na capital sergipana, Aracaju.
Artigo apresentado em 2014 para a matéria "Tecnologia e linguagem dos meios de comunicação" do curso de Audiovisual da Universidade Federal de Sergipe (UFS).
O mercado fonográfico encontra-se em uma grande enrascada. Com a acensão da internet e o seu modelo de compartilhamento incessante, os grandes selos e gravadoras viram as
suas economias em crise. De um modo geral, o surgimento dos torrents
e sites de hospedagem aumentaram a circulação de conteúdo artístico, mas em compensação freou violentamente a economia
fonográfica. Por outro lado, o cinema, com forte poder de
reinventar-se, devido ao seu modelo de consumo, não enfrentou tantos
problemas. Entretanto, com o crescente aumento dos mais diversos
tipos de tela, essa situação começa a incomodar.
O Presente artigo tenta relacionar os debates
apresentados na obra “A Tela global” de Gilles Lipovetsky com a
postura inovadora de Amanda Palmer dentro do mercado fonográfico.
Apesar de os dois assuntos tratarem de nichos diferentes, cinema e
música, pretendemos problematizar a relação entre consumidor e
produtor de arte à partir das inovações tecnológicas, não só
pelas vias econômicas, mas também pelas relações sociais.
Introdução
– Um novo modelo de consumo
A tecnologia dos anos
1980 cola-se à pele, responde ao toque: o computador pessoal, o
walkman, o telefone portátil, as lentes de contato. Alguns temas
centrais emergem repetidamente no ciberpunk. O
tema ainda mais poderoso
da invasão da mente:
interfaces
cérebro-computador, inteligência artificial, neuroquímica
– técnicas que radicalmente redefinem a natureza da humanidade, a
natureza do eu... (SANTAELLA,
2007, p. 128, apud DYENS,
2001, p. 73)
A
citação acima refere-se aos anos 80, mas ela cabe perfeitamente ao
que viria acontecer nos anos posteriores. Vivemos o pós-humanismo,
ou seja, vivemos cada dia mais numa difusão entre homem e máquina.
Mas diferente das previsões oitentistas em filmes como Blade Runner,
a tecnologia não está desmembrada do ser humano. Não existem ao
nosso redor robôs andantes e falantes que nos servem, na verdade, a
nossa relação parece ser mais carnal, conectada. A tecnologia hoje
interfere nas relações humanas
como suporte. As telas espalhadas pelo mundo com seus aplicativos e a
internet oferecem um modelo de troca de informações e comunicação
bem mais simplificados.
Nossas
relações sociais, profissionais e financeiras quase nos obriga a
entrar nessa lógica de intermediação tecnológica. Essa interferência, se bem utilizada, facilita a vida do ser humano, além
de lhe trazer mais conhecimento e entretenimento. Nesse espaço novas alternativas de consumo audiovisual se ampliaram, vemos TV e ouvimos
rádio de maneira diferente, nos comunicamos com mais facilidade em
meio as redes sociais e até coisas banais, como chamar um táxi e
identificar uma música legal se tornaram simplificadas. Todo esse
movimento pode ser caracterizado como cibercultura. Entende-se esse
termo como “a relações
entre as tecnologias informacionais de comunicação e informação e
a cultura, emergentes
a partir da convergência informática/telecomunicações na década
de 1970” (Lemos, 2002).
Ainda
segundo André Lemos, a cibercultura tem como principal orientador a
“re-mixagem”, que seria mais ou menos o costume de
reaproveitamento e edição de conteúdo e informações dentro das
tecnologias digitais. Esse principio tem como características básicas:
“a liberação do pólo da emissão, o princípio de conexão em rede e a reconfiguração de formatos midiáticos e práticas
sociais”, ou seja, o antigo consumidor torna-se também produtor,
cria e adapta o que já existe; se expandem as conexões entre os
usuários com acensão dos dispositivos móveis e a expansão do
acesso a internet e, por último, a restruturação da industria que
destrói o monopólio burgues.
A
cibercultura reconfigurou não só a industria cultural, como também
revolucionou as relações pessoais e a experiencia humana. Alterou
as formas de produção e circulação material, de conteúdo e de
serviços, assim também como modificou a troca de informações e a
comunicação. Dentre dessa revolução, as mídias hegemônicas e a industria cultural, viram o seu monopólio ruir. As novas mídias
apresentam um formato igualitário e democrático e fazem com que a
industria acabe ganhando novas molduras. Dentro desse novo momento
surgem novos conflitos, não só para a industria como também para
artistas e produtores.
As
soluções de Amanda Palmer
Amanda
Palmer não foi a criadora de um sistema que se adaptou as novas
tecnologias. As plataformas que ela usou para arrecadar dinheiro dos
fãs para uma produção independente, já existiam. Na verdade, a
cantora é um exemplo de uma restruturação da industria da arte a
partir do próprio artista. Nesse novo modelo as grandes industrias
perdem o controle para os produtores, o que resulta uma maior
liberdade para o mesmo.
No
caso de Amanda Palmer, cantora da banda The Dresden Dolls, a
plataforma usada por ela foi um site de crowdfunding, financiamento coletivo. Esses espaços funcionam de forma inversa ao modelo
consolidado anteriormente. Os consumidores, fãs e amigos, pagam
antecipadamente pelo produto a quantia que achar necessária, para só
depois, afinal a realização ainda vai acontecer, receber o produto.
Na arrecadação que Palmer fez junto aos fãs, sua pretensão era
de 100 mil, mas acabou conseguindo mais de US$ 1 milhão, ou seja,
transformou-se em um ícone desse modelo de negócio.
Para
a cantora esse novo modelo de gestão de negócio é libertário: “Eu
quero fazer música e quero ter o controle. Geralmente, perde-se o
controle quando se assina com grandes gravadoras, e acaba não
valendo a pena, mesmo que a grana seja maior. Eu tenho uma boa ideia
de quem são os meus fãs, o tipo de música que eu quero fazer, como
eu quero que o conjunto fique” (PALMER, 2013).
Uma
revolução na industria da arte
O
'verdadeiro' cinema não se acha atrás de nós: ele não cessa de se
reinventar. Mesmo confrontando a novos desafios de produção, de
difusão e de consumo, o cinema continua sendo uma arte de um
poderoso dinamismo, cuja criatividade não está de modo algum em
declínio. O tudo-tela não é o túmulo do cinema: mais do que nunca
este demonstra inventividade, diversidade, vitalidade (LIPOVETSKY;
SERROY, 2009, p 14).
Assim
como a industria fonográfica, o cinema também enfrenta um dilema.
Com a expansão das telas, principal suporte para as tecnologias
atuais, o audiovisual estará em todos os lugares, mas em
descompensação pode por em risco o formato atual da industria
cinematográfica. Mas, diferente da música, o cinema consegue se adaptar e resistir, entretanto os meios de transmissão de conteúdo
audiovisual não param de surgir e por isso esse cenário deve se
transformar.
A
primeira grande concorrência tecnológica que gerou medo na industria
cinematográfica foi o surgimento da televisão. Muitos acreditavam
que as pessoas deixariam de assistir filmes em salas de cinema, para
assistir no conforto das suas salas. Acabou que a televisão
construiu uma linguagem, metodologia e sistema financeiro próprio,
diferenciando da sétima arte. Hoje em dia, o próprio modelo
clássico de ver TV está mais ameaçado que as exibições de filmes
em salas de cinema. Houve uma reconfiguração, as salas acabaram se
transportadas para dentro dos shoppings e os investimentos de filmes
dedicados a várias “janelas”, ganharam um maior financiamento.
A
questão agora é que o problema (ou solução) é bem mais complexo.
Vivemos à época da tela global:
Tela
em todo lugar e a todo momento, nas lojas e nos aeroportos, nos
restaurantes e bares, no metrô, nos carros e nos aviões; tela de
todas as dimensões, tela plana, tela cheia e minitela portátil;
tela sobre nós, tela que carregamos conosco; tela para ver e fazer
tudo. Tela de vídeo, tela em miniatura, tela gráfica, tela nômade,
tela tátil, o século que começa é o da tela onipresente e
multifome, planetária e multimidiática (LIPOVETSKY; SERROY, 2009, p
14).
Todas
essas definições de telas aglomeram dentro delas plataformas que, a
cada vez mais, fazem ligações de uma mídia com outra, num processo
chamado transmídia. Tv e rádio hoje já são transmitidas online, o
serviço do Netflix, por exemplo, oferece um modo revolucionário de
ver televisão: o que quiser, quando quiser em qualquer lugar. A
televisão perde cada vez mais audiência, mas algumas séries batem
recordes de downloads, os investimentos para as produções
televisivas se equilibram com os grandes filmes hollywoodianas, o que
parece acontecer é que as produções seguem o mesmo caminho feito
pelas mídias, tudo conectando-se.
Produções
baratas lotam sessões, produções caras enchem programações de
canais de assinatura, filmes estreiam direto na TV, exibições simultâneas de episódios de séries em todos os países que o canal
tem retransmissoras, rádio em aparelhos televisivos, Tv em
dispositivos móveis. Os limites entre TV, rádio, cinema e internet
parecem cada vez mais desaparecer e é dentro dessa lógica que o
capitalismo parece desestruturar-se. Mas o que é mais interessante é
que o monopólio da produção cultural foi quebrado, as tentativas de resistência fora desse novo modelo social ao qual se organiza as
relações sociais, frustraram.
Dentro
desses dois panoramas, com o audiovisual expandindo suas plataformas de exibição e ao mesmo tempo transformando essas mesma plataformas
em uma única coisa, onde o que diferencia as produções é o caráter técnico, e a música arranja novas formas de financiamento,
bandas recorrem a financiamentos coletivos, disponibilizam grátis o
disco na internet ao mesmo tempo que aumenta o preço e o número de
shows . O que fica claro é que o mercado se reconfigurou, a crise
existe para quem não se adequou as novas tecnologias.
Conclusão
Como
fica claro na introdução deste artigo, a internet revolucionou as
relações sociais e constantemente transforma a industria cultural.
Ela tem um caráter bastante democrático e anárquico. As informações
cada vez mais sai das mãos dos detentores de capital, isso é um
grande avanço para humanidade. Mas o futuro apresenta grandes
conflitos. Dentro do sistema em que vivemos, a arte precisa
sustentar-se, os produtores precisam de dinheiro para produzir mais.
Entretanto, ao mesmo tempo, esse democratização da “arte em todo
lugar” não pode morrer, nem deve, pela dimensão que a internet
tem.
Na
verdade, as tecnologias a partir das interferências sociais,
modificaram toda a estrutura de sociedade. O capitalismo, como
conhecemos, até então, está morrendo. A democracia no consumo da
arte vem de um viés de esquerda e ameaça o “livre mercado”, mas
fomenta a liberdade individual. O grande risco, que é comum dentro
desse sistema, é que ele queira apoderar-se dessas liberdades. Uma
visão otimista da manutenção desse mercado é o exemplo de Amanda
Palmer, mas existem ações da antiga mídia hegemônica e agora destruída tentando retornar a sua dominação. Mas o interessante é
que além das alternativas criadas pela tecnologia, ela própria em
seu sistema dificulta essas atitudes.
Fico extremamente frustrado quando vejo universitários ou já formados, reproduzirem uma ignorância. Não cabe dentro da minha cabeça que eles possam levar o debate sem aprofundamento. Repetir um erro de gerações. Repetir algo que nunca resultou em nada. Reproduzir preconceitos claros e os enraizados, aqueles que de tão comum parecem naturais.
Afinal, para que serve uma universidade? Para lhe garantir um emprego e uma vida normativa ou para, além disso, lhe proporcionar conhecimento, capacidade crítica e para ajudar o individuo no processo de uma sociedade melhor? Quando médicos deixam de pensar que sua profissão pode salvar vidas e começam a imaginar quanto irão ganhar futuramente, é disso que estou falando nesse momento. Não consigo me inquietar se ao me redor existem pessoas em processos individualistas, não que o individual não seja importante, estamos falando em questões coletivas. O mais incrível é que, em sua maioria cristãos, não reproduzem os ensinamentos de esquerda de Cristo. Pois é, não acredito em Deus, mas Jesus foi um cara de esquerda. Prezava pela igualdade, andava com as "minorias" e aquela barba e cabelos longos não me enganam.
No meio dessa história toda que sai do meu teclado, num fluxo de pensamento, venho defender meu posicionamento. Igualdade é a base dele. Então não venha jogar na minha cara a reprodução de algo que você ouviu na TV ou dos erros de outras gerações. Esquerda é utopia e utopia é a máxima de uma sociedade perfeita. Vejo o sistema que vivo caminhando ainda mais para uma distopia, um fracasso. Podem acreditar que tudo isso seja impossível, mas a impossibilidade não tira de mim o desejo por uma sociedade melhor. Nunca quis mudar o mundo, sempre quis mudar o que estava próximo de mim. Dizer que esse pensamento é fútil e que não tem legitimidade faz de você uma pessoa egoísta e acima de tudo perversa.
Dizer que esse ideal defende bandido é uma burrice, isso nunca aconteceu. Adotar um bandido? Vai ser ignorante na puta que te pariu. As pessoas devem pagar pelos seus erros, mas não no olho por olho. Onde já se viu responder um crime com outro crime? Dessa cultura de violência me recuso a participar. E outra coisa, vamos aprofundar mais o debate: O que levou este ser humano a errar? Ele é uma pessoa ruim desde que nasceu? Ele é ganancioso e queria mais sendo que não tinha nada? Ou será que na falta de direitos negados durante toda a sua vida, processo que acompanha também seus pais, esse individuo custa a cumprir com seus deveres? Vamos aprofundar ainda mais o debate e tentar lembrar que sociedade conseguiu melhorar a violência na base de uma cultura repreensiva e violenta? O extermínio da juventude negra nas periferias brasileiras mudaram o quadro de violência no nosso país?
Por isso humanos direitos, saibam que direitos humanos são para todos. Sem distinção! Graças ao bom senso de alguns muitos, não seguimos o discurso nazista que fez a sociedade alemã acreditar que judeus, negros e gays não eram humanos. Saibam, humanos direitos, que seu direito a liberdade de expressão, de crença, de ir e vir e a sua liberdade individual são garantias dos direitos humanos, por isso não venha dizer que esse discurso protege bandido, ele protege você, eu e qualquer ser humano. Claro, que o tal menino pendurado ao poste foi contra essa máxima, mas não é por isso que uma violação nesse sentido seja sentenciado com outra violação.
Por último, não venha com o argumento pronto: "é porque não foi com você". Não estou aqui indo de contra a vitima, ela, em seu sofrimento, merece todo o suporte. Foi tirado dela um direito básico. Entendo a sensação de insegurança também, mas não resolveremos nada numa cultura de violência. Fui assaltado várias vezes, nunca desejei a morte dos que me roubaram. Apesar de hoje estarem mortos, pois na minha cidade houve um extermínio de jovens negros*, nunca desejei a esses garotos mal algum. Pelo contrário, luto para que possamos sair desse sistema vicioso que opta pelo mais fácil e que não resolve nada. Luto para que desde cedo todas as pessoas tenham seus direitos garantidos. Luto por um sistema que não aperfeiçoe um bandido na cadeia, mas para que possa recuperá-lo. Podem me julgar ridículo, mas continuo a Lutar e da luta não me retiro!
* A matança que aconteceu em Poço Verde, minha cidade, de nada resolveu. Ainda existem vários jovens em situação vulnerável e que podem vir a cometer crimes. A onda de mortes ainda não acabou, ou seja, a violência não terminou. O que houve foi apenas uma transferência das vitimas e não há nada que impeça que as antigas vítimas voltem a se tornar alvo.
"Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade."
— Artigo 1º Declaração Universal dos Direitos Humanos
"É preciso tomar cuidado (...) Nós, povo, é que devemos tomar cuidado de não acreditar em coisas malucas. Acreditar que, como muitos que acreditaram em Hitler, que a raça ariana podia ser purificada. Muitos acreditaram! E deu no que deu, milhões de pessoas assassinadas. (...) Isso é uma bandidagem, é bandidagem de classe média. Pior é quem faz uso dos meios midiáticos para estimular a violência, estimular a discriminação. (...) Quando mídia e classe média começam a difundir e fazer apologia da violência se iguala ao bandido perverso de baixo e não tem mais diferença. Usa a mesma estratégia de conseguir as coisas que quer por meio de violência." Jurista Luiz Flávio Gomes. Integra: