segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Em pleno século XXI ainda precisamos responder: Direitos humanos são aqueles que protegem bandidos?

A evolução da humanidade como sociedade organizada tem relação íntima com a luta pelos direitos humanos. Foi esse processo de muitas datas que hoje podem garantir direitos mínimos a toda e qualquer pessoa. Para a sociedade, essas garantias, devem ser motivos de alegria, afinal estamos falando do direito de ser, de viver, das liberdades de pensamento, de crença e de expressão. Também estamos falando de democracia, não existe uma sociedade democrática se não há a garantia dos direitos humanos. De dignidade, direito ao trabalho, à educação, à saúde e à moradia. Infelizmente essa luta ainda não acabou. Em pleno século XXI ainda precisamos do empenho de muita gente para progredir como sociedade de direitos.

Na minha infância eu sempre acreditei que a humanidade vivia em progresso. Seja o que for, aconteça o que aconteça, as coisas mudavam e para melhor. Isso era certo para mim. Porém, infelizmente, a minha entrada no mundo adulto me provou outra coisa. As coisas podem piorar e a roda da evolução pode retroceder. Isso fica claro quando sujeitos como Silas Malafaia e Bolsonaro ganham visibilidade, quando discursos de “bandido bom é bandido morto” e “direitos humanos para humanos direitos” são repetidos sem reflexão, quando uma juventude universitária ganha uma ideologia reacionária e de ódio. Afinal, pra que (m) serve teu conhecimento?

Pixação nos muros da Universidade Federal de Sergipe (UFS) – Aracaju – SE

Essa juventude entende que a retirada de direitos de alguns é importante para que eles aprendam e se concertem, enxergam que o jovem que está na criminalidade é um vagabundo, um caso sem relação com a estrutura de sociedade que vivemos, tem visão maquiavélica, onde o mal são os “outros” e o bem somos “nós”. Mas quem somos “nós”? Quem são os “outros”?

Os “outros” são aqueles que durante toda a sua vida foram retirados seus direitos, os “outros” são aqueles sem dignidade, aqueles que não se enxergam entre “nós”, aquele que “nós” separamos com um muro, excluídos, aquele que “nós” olhamos feio quando está por perto. Infelizmente, a nossa sociedade é construída na base da indiferença. E é esse tipo de mentalidade que precisamos aprofundar. Retirar direitos para aprender a se colocar no seu lugar ou garantir direitos para uma sociedade melhor e mais igualitária?


Que aqui fica bem claro não ser um texto maquiavélico, como já dito antes. Ninguém aqui, em sã consciência, acredita que a retirada de direitos provocada pelo “outro” seja encorajada. A intenção é refletir sobre a estrutura de sociedade que vivemos e como essa estrutura precisa ser revolucionada para uma sociedade melhor. Deixo aqui a reflexão, da importância de romper com o olhar da tradição, da importância de não naturalizar nem legitimar ações de ódio, da importância de ajudar na construção dessa sociedade. Ela é possível!

sábado, 12 de abril de 2014

Fotografias - Parte 1

Finalmente fiz a matéria de Fotografia digital na universidade. Gosto muito de fotografar e hoje compreendo que o ato não trata-se apenas do movimento físico de apertar um botão, mas também de ter a sensibilidade de fazer escolhas, principalmente a do ponto de vista. Sendo assim, esse post trata apenas da exposição das minhas fotografias. Espero fazer mais e quem sabe comprar um Canon legal, por isso parte 1 no título, para que acima de tudo eu tenha a convicção de que preciso expor meu olhar constantemente.

PS - As fotos foram feitas durante a preparação do Sarau debaixo, evento que acontece toda terceira terça do mês em baixo do viaduto do DIA na capital sergipana, Aracaju.








quinta-feira, 3 de abril de 2014

As novas relações econômicas e sociais entre consumidores e produtores no mercado artístico

Artigo apresentado em 2014 para a matéria "Tecnologia e linguagem dos meios de comunicação" do curso de Audiovisual da Universidade Federal de Sergipe (UFS).

Raul Marx Rabelo Araujo
Estudante de Comunicação social da UFS

Resumo

O mercado fonográfico encontra-se em uma grande enrascada. Com a acensão da internet e o seu modelo de compartilhamento incessante, os grandes selos e gravadoras viram as suas economias em crise. De um modo geral, o surgimento dos torrents e sites de hospedagem aumentaram a circulação de conteúdo artístico, mas em compensação freou violentamente a economia fonográfica. Por outro lado, o cinema, com forte poder de reinventar-se, devido ao seu modelo de consumo, não enfrentou tantos problemas. Entretanto, com o crescente aumento dos mais diversos tipos de tela, essa situação começa a incomodar.

O Presente artigo tenta relacionar os debates apresentados na obra “A Tela global” de Gilles Lipovetsky com a postura inovadora de Amanda Palmer dentro do mercado fonográfico. Apesar de os dois assuntos tratarem de nichos diferentes, cinema e música, pretendemos problematizar a relação entre consumidor e produtor de arte à partir das inovações tecnológicas, não só pelas vias econômicas, mas também pelas relações sociais.

Introdução – Um novo modelo de consumo

A tecnologia dos anos 1980 cola-se à pele, responde ao toque: o computador pessoal, o walkman, o telefone portátil, as lentes de contato. Alguns temas centrais emergem repetidamente no ciberpunk. O tema ainda mais poderoso da invasão da mente: interfaces cérebro-computador, inteligência artificial, neuroquímica – técnicas que radicalmente redefinem a natureza da humanidade, a natureza do eu... (SANTAELLA, 2007, p. 128, apud DYENS, 2001, p. 73)


A citação acima refere-se aos anos 80, mas ela cabe perfeitamente ao que viria acontecer nos anos posteriores. Vivemos o pós-humanismo, ou seja, vivemos cada dia mais numa difusão entre homem e máquina. Mas diferente das previsões oitentistas em filmes como Blade Runner, a tecnologia não está desmembrada do ser humano. Não existem ao nosso redor robôs andantes e falantes que nos servem, na verdade, a nossa relação parece ser mais carnal, conectada. A tecnologia hoje interfere nas relações humanas como suporte. As telas espalhadas pelo mundo com seus aplicativos e a internet oferecem um modelo de troca de informações e comunicação bem mais simplificados.

Nossas relações sociais, profissionais e financeiras quase nos obriga a entrar nessa lógica de intermediação tecnológica. Essa interferência, se bem utilizada, facilita a vida do ser humano, além de lhe trazer mais conhecimento e entretenimento. Nesse espaço novas alternativas de consumo audiovisual se ampliaram, vemos TV e ouvimos rádio de maneira diferente, nos comunicamos com mais facilidade em meio as redes sociais e até coisas banais, como chamar um táxi e identificar uma música legal se tornaram simplificadas. Todo esse movimento pode ser caracterizado como cibercultura. Entende-se esse termo como “a relações entre as tecnologias informacionais de comunicação e informação e a cultura, emergentes a partir da convergência informática/telecomunicações na década de 1970” (Lemos, 2002).

Ainda segundo André Lemos, a cibercultura tem como principal orientador a “re-mixagem”, que seria mais ou menos o costume de reaproveitamento e edição de conteúdo e informações dentro das tecnologias digitais. Esse principio tem como características básicas: “a liberação do pólo da emissão, o princípio de conexão em rede e a reconfiguração de formatos midiáticos e práticas sociais”, ou seja, o antigo consumidor torna-se também produtor, cria e adapta o que já existe; se expandem as conexões entre os usuários com acensão dos dispositivos móveis e a expansão do acesso a internet e, por último, a restruturação da industria que destrói o monopólio burgues.

A cibercultura reconfigurou não só a industria cultural, como também revolucionou as relações pessoais e a experiencia humana. Alterou as formas de produção e circulação material, de conteúdo e de serviços, assim também como modificou a troca de informações e a comunicação. Dentre dessa revolução, as mídias hegemônicas e a industria cultural, viram o seu monopólio ruir. As novas mídias apresentam um formato igualitário e democrático e fazem com que a industria acabe ganhando novas molduras. Dentro desse novo momento surgem novos conflitos, não só para a industria como também para artistas e produtores.

As soluções de Amanda Palmer


Amanda Palmer não foi a criadora de um sistema que se adaptou as novas tecnologias. As plataformas que ela usou para arrecadar dinheiro dos fãs para uma produção independente, já existiam. Na verdade, a cantora é um exemplo de uma restruturação da industria da arte a partir do próprio artista. Nesse novo modelo as grandes industrias perdem o controle para os produtores, o que resulta uma maior liberdade para o mesmo.

No caso de Amanda Palmer, cantora da banda The Dresden Dolls, a plataforma usada por ela foi um site de crowdfunding, financiamento coletivo. Esses espaços funcionam de forma inversa ao modelo consolidado anteriormente. Os consumidores, fãs e amigos, pagam antecipadamente pelo produto a quantia que achar necessária, para só depois, afinal a realização ainda vai acontecer, receber o produto. Na arrecadação que Palmer fez junto aos fãs, sua pretensão era de 100 mil, mas acabou conseguindo mais de US$ 1 milhão, ou seja, transformou-se em um ícone desse modelo de negócio.

Para a cantora esse novo modelo de gestão de negócio é libertário: “Eu quero fazer música e quero ter o controle. Geralmente, perde-se o controle quando se assina com grandes gravadoras, e acaba não valendo a pena, mesmo que a grana seja maior. Eu tenho uma boa ideia de quem são os meus fãs, o tipo de música que eu quero fazer, como eu quero que o conjunto fique” (PALMER, 2013).

Uma revolução na industria da arte

O 'verdadeiro' cinema não se acha atrás de nós: ele não cessa de se reinventar. Mesmo confrontando a novos desafios de produção, de difusão e de consumo, o cinema continua sendo uma arte de um poderoso dinamismo, cuja criatividade não está de modo algum em declínio. O tudo-tela não é o túmulo do cinema: mais do que nunca este demonstra inventividade, diversidade, vitalidade (LIPOVETSKY; SERROY, 2009, p 14).


Assim como a industria fonográfica, o cinema também enfrenta um dilema. Com a expansão das telas, principal suporte para as tecnologias atuais, o audiovisual estará em todos os lugares, mas em descompensação pode por em risco o formato atual da industria cinematográfica. Mas, diferente da música, o cinema consegue se adaptar e resistir, entretanto os meios de transmissão de conteúdo audiovisual não param de surgir e por isso esse cenário deve se transformar.

A primeira grande concorrência tecnológica que gerou medo na industria cinematográfica foi o surgimento da televisão. Muitos acreditavam que as pessoas deixariam de assistir filmes em salas de cinema, para assistir no conforto das suas salas. Acabou que a televisão construiu uma linguagem, metodologia e sistema financeiro próprio, diferenciando da sétima arte. Hoje em dia, o próprio modelo clássico de ver TV está mais ameaçado que as exibições de filmes em salas de cinema. Houve uma reconfiguração, as salas acabaram se transportadas para dentro dos shoppings e os investimentos de filmes dedicados a várias “janelas”, ganharam um maior financiamento.

A questão agora é que o problema (ou solução) é bem mais complexo. Vivemos à época da tela global:

Tela em todo lugar e a todo momento, nas lojas e nos aeroportos, nos restaurantes e bares, no metrô, nos carros e nos aviões; tela de todas as dimensões, tela plana, tela cheia e minitela portátil; tela sobre nós, tela que carregamos conosco; tela para ver e fazer tudo. Tela de vídeo, tela em miniatura, tela gráfica, tela nômade, tela tátil, o século que começa é o da tela onipresente e multifome, planetária e multimidiática (LIPOVETSKY; SERROY, 2009, p 14).

Todas essas definições de telas aglomeram dentro delas plataformas que, a cada vez mais, fazem ligações de uma mídia com outra, num processo chamado transmídia. Tv e rádio hoje já são transmitidas online, o serviço do Netflix, por exemplo, oferece um modo revolucionário de ver televisão: o que quiser, quando quiser em qualquer lugar. A televisão perde cada vez mais audiência, mas algumas séries batem recordes de downloads, os investimentos para as produções televisivas se equilibram com os grandes filmes hollywoodianas, o que parece acontecer é que as produções seguem o mesmo caminho feito pelas mídias, tudo conectando-se.
Produções baratas lotam sessões, produções caras enchem programações de canais de assinatura, filmes estreiam direto na TV, exibições simultâneas de episódios de séries em todos os países que o canal tem retransmissoras, rádio em aparelhos televisivos, Tv em dispositivos móveis. Os limites entre TV, rádio, cinema e internet parecem cada vez mais desaparecer e é dentro dessa lógica que o capitalismo parece desestruturar-se. Mas o que é mais interessante é que o monopólio da produção cultural foi quebrado, as tentativas de resistência fora desse novo modelo social ao qual se organiza as relações sociais, frustraram.

Dentro desses dois panoramas, com o audiovisual expandindo suas plataformas de exibição e ao mesmo tempo transformando essas mesma plataformas em uma única coisa, onde o que diferencia as produções é o caráter técnico, e a música arranja novas formas de financiamento, bandas recorrem a financiamentos coletivos, disponibilizam grátis o disco na internet ao mesmo tempo que aumenta o preço e o número de shows . O que fica claro é que o mercado se reconfigurou, a crise existe para quem não se adequou as novas tecnologias.

Conclusão

Como fica claro na introdução deste artigo, a internet revolucionou as relações sociais e constantemente transforma a industria cultural. Ela tem um caráter bastante democrático e anárquico. As informações cada vez mais sai das mãos dos detentores de capital, isso é um grande avanço para humanidade. Mas o futuro apresenta grandes conflitos. Dentro do sistema em que vivemos, a arte precisa sustentar-se, os produtores precisam de dinheiro para produzir mais. Entretanto, ao mesmo tempo, esse democratização da “arte em todo lugar” não pode morrer, nem deve, pela dimensão que a internet tem.

Na verdade, as tecnologias a partir das interferências sociais, modificaram toda a estrutura de sociedade. O capitalismo, como conhecemos, até então, está morrendo. A democracia no consumo da arte vem de um viés de esquerda e ameaça o “livre mercado”, mas fomenta a liberdade individual. O grande risco, que é comum dentro desse sistema, é que ele queira apoderar-se dessas liberdades. Uma visão otimista da manutenção desse mercado é o exemplo de Amanda Palmer, mas existem ações da antiga mídia hegemônica e agora destruída tentando retornar a sua dominação. Mas o interessante é que além das alternativas criadas pela tecnologia, ela própria em seu sistema dificulta essas atitudes.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Carta aberta aos humanos direitos

Fico extremamente frustrado quando vejo universitários ou já formados, reproduzirem uma ignorância. Não cabe dentro da minha cabeça que eles possam levar o debate sem aprofundamento. Repetir um erro de gerações. Repetir algo que nunca resultou em nada. Reproduzir preconceitos claros e os enraizados, aqueles que de tão comum parecem naturais.




Afinal, para que serve uma universidade? Para lhe garantir um emprego e uma vida normativa ou para, além disso, lhe proporcionar conhecimento, capacidade crítica e para ajudar o individuo no processo de uma sociedade melhor? Quando médicos deixam de pensar que sua profissão pode salvar vidas e começam a imaginar quanto irão ganhar futuramente, é disso que estou falando nesse momento. Não consigo me inquietar se ao me redor existem pessoas em processos individualistas, não que o individual não seja importante, estamos falando em questões coletivas. O mais incrível é que, em sua maioria cristãos, não reproduzem os ensinamentos de esquerda de Cristo. Pois é, não acredito em Deus, mas Jesus foi um cara de esquerda. Prezava pela igualdade, andava com as "minorias" e aquela barba e cabelos longos não me enganam.

No meio dessa história toda que sai do meu teclado, num fluxo de pensamento, venho defender meu posicionamento. Igualdade é a base dele. Então não venha jogar na minha cara a reprodução de algo que você ouviu na TV ou dos erros de outras gerações. Esquerda é utopia e utopia é a máxima de uma sociedade perfeita. Vejo o sistema que vivo caminhando ainda mais para uma distopia, um fracasso. Podem acreditar que tudo isso seja impossível, mas a impossibilidade não tira de mim o desejo por uma sociedade melhor. Nunca quis mudar o mundo, sempre quis mudar o que estava próximo de mim. Dizer que esse pensamento é fútil e que não tem legitimidade faz de você uma pessoa egoísta e acima de tudo perversa.

Dizer que esse ideal defende bandido é uma burrice, isso nunca aconteceu. Adotar um bandido? Vai ser ignorante na puta que te pariu. As pessoas devem pagar pelos seus erros, mas não no olho por olho. Onde já se viu responder um crime com outro crime? Dessa cultura de violência me recuso a participar. E outra coisa, vamos aprofundar mais o debate: O que levou este ser humano a errar? Ele é uma pessoa ruim desde que nasceu? Ele é ganancioso e queria mais sendo que não tinha nada? Ou será que na falta de direitos negados durante toda a sua vida, processo que acompanha também seus pais, esse individuo custa a cumprir com seus deveres? Vamos aprofundar ainda mais o debate e tentar lembrar que sociedade conseguiu melhorar a violência na base de uma cultura repreensiva e violenta? O extermínio da juventude negra nas periferias brasileiras mudaram o quadro de violência no nosso país?

Por isso humanos direitos, saibam que direitos humanos são para todos. Sem distinção! Graças ao bom senso de alguns muitos, não seguimos o discurso nazista que fez a sociedade alemã acreditar que judeus, negros e gays não eram humanos. Saibam, humanos direitos, que seu direito a liberdade de expressão, de crença, de ir e vir e a sua liberdade individual são garantias dos direitos humanos, por isso não venha dizer que esse discurso protege bandido, ele protege você, eu e qualquer ser humano. Claro, que o tal menino pendurado ao poste foi contra essa máxima, mas não é por isso que uma violação nesse sentido seja sentenciado com outra violação.

Por último, não venha com o argumento pronto: "é porque não foi com você". Não estou aqui indo de contra a vitima, ela, em seu sofrimento, merece todo o suporte. Foi tirado dela um direito básico. Entendo a sensação de insegurança também, mas não resolveremos nada numa cultura de violência. Fui assaltado várias vezes, nunca desejei a morte dos que me roubaram. Apesar de hoje estarem mortos, pois na minha cidade houve um extermínio de jovens negros*, nunca desejei a esses garotos mal algum. Pelo contrário, luto para que possamos sair desse sistema vicioso que opta pelo mais fácil e que não resolve nada. Luto para que desde cedo todas as pessoas tenham seus direitos garantidos. Luto por um sistema que não aperfeiçoe um bandido na cadeia, mas para que possa recuperá-lo. Podem me julgar ridículo, mas continuo a Lutar e da luta não me retiro!

* A matança que aconteceu em Poço Verde, minha cidade, de nada resolveu. Ainda existem vários jovens em situação vulnerável e que podem vir a cometer crimes. A onda de mortes ainda não acabou, ou seja, a violência não terminou. O que houve foi apenas uma transferência das vitimas e não há nada que impeça que as antigas vítimas voltem a se tornar alvo.

"Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade."
— Artigo 1º Declaração Universal dos Direitos Humanos

"É preciso tomar cuidado (...) Nós, povo, é que devemos tomar cuidado de não acreditar em coisas malucas. Acreditar que, como muitos que acreditaram em Hitler, que a raça ariana podia ser purificada. Muitos acreditaram! E deu no que deu, milhões de pessoas assassinadas. (...) Isso é uma bandidagem, é bandidagem de classe média. Pior é quem faz uso dos meios midiáticos para estimular a violência, estimular a discriminação. (...) Quando mídia e classe média começam a difundir e fazer apologia da violência se iguala ao bandido perverso de baixo e não tem mais diferença. Usa a mesma estratégia de conseguir as coisas que quer por meio de violência." Jurista Luiz Flávio Gomes. Integra:



sábado, 21 de setembro de 2013

O Que vi: Mostra Tati por inteiro














Tati, por muito tempo, ficou no meu olhar periférico de cinema. Não por motivos de qualidade e sim porque pouco ouvia falar sobre ele. O meu primeiro contato com o nome foi em "Meu tio", que em um passado distante alguém havia me recomendado. Mas a figura ainda não fazia a minha cabeça. A segunda aparição foi em um vídeo do omelete em que se discute "Playtime". Me instigou, quero ver. Mas o que, definitivamente, me levou a conhecer o diretor foi a "Mostra Tati por inteiro", promovido pelo SESC que rolou no Cine Vitória em Aracaju.

Jacques Tatischeff poderia ter sucedido o pai no comércio de molduragem ou seguido uma carreira no exército, mas, felizmente, teve uma oportunidade em um determinado baila de gala. No evento, feito para celebrar um certo prêmio, Tati pode apresentar a sua performasse como ator, acrobata e dançarino. Daí foi só um pulo para ele sair do teatro e ir parar no cinema, não só em frente as câmeras como também atrás delas.













Em "Meu tio", filme que considero o melhor entre os que assisti, Tati já encanta pela sua leveza na narrativa, sua critica social e sua capacidade de fazer rir. No filme acompanhamos o Mr. Hulot, homem simples e de pouca ligação com bens materiais, convivendo com uma parte de sua família bem mais rica e de forte ligação afetiva e moral com o consumo. A irmã, o cunhado e o sobrinho moram em um bairro de classe média em uma casa funcional, cheia de tecnologias que "facilitam" as suas vidas. O longa discorre sobre a relação do personagem principal, recorrente em sua filmografia, junto ao pequeno sobrinho.

"Meu tio" trata-se de uma incrível crítica de Tati ao consumismo exagerado da sociedade em que vivia e que existe até os dias de hoje. A todo momento esse tipo de comportamento é ridicularizado pelo diretor, principalmente com suas piadas que pouco necessitam de diálogos para fazer rir. Na casa moderna da sua família, os produtos são personagens mais importantes que os seus habitantes. A irmã de Hulot, incansavelmente, mostra a casa as seus amigos e vizinhos, ligando o chafariz todo momento em que uma visita ameaça entrar na sua casa.

Para destacar o contraste entra vida simples do personagem e do restante da sua família, Tati trabalha com um aspecto visual e sonoro bastante interessante. Nas cenas do bairro rico, os tons cinzas e as formas geométricas tomam conta da imagética, enquanto nos passeios do Mr. Hulot pelas ruas do seu bairro simples, o marrom junto ao colorido transforma aquele lugar em um espaço bem mais confortável e bonito. Outro aspecto que acentua esse discurso é pelo fato da ausência de trilha sonora nas cenas da família em sua mansão, enquanto no outro espaço uma música alegre e bem francesa nos faz querer estar entre aquelas pessoas. Isso reflete o comportamento do sobrinho, que se identifica com o tio e repete o estilo de vida do mesmo, fato que parece ser o principal conflito do filme, já que a narrativa de Tati pouco se assemelha com a clássica.



Parada é uma espécie de circo e teatro numa tela de cinema. Trata-se de várias esquetes de humor em que Tati e vários artista se revesam em um circo gravado. Variando cenas de bastidores com apresentações de dança, pintura, balé, acrobacia e tantas outras manifestações, Parade é um filme feito para televisão. Com a maioria dos seus planos abertos como se o olhar da câmera fosse o do público, o filme tenta nos convencer de que a participação da platéia, que ocorre a todo momento, é improvisada. Claramente não é. O filme parece ser documental, mas só uma criança poderia ser enganada assim, o que faz sentido, já que o filme também parece ser direcionado ao público infantil. 














A ruína financeira de Jaqcques Tati, devido ao seu alto custeamento e demora na produção, Playtime é outro longa da filmografia do diretor com uma forte crítica social. Considerado por muitos como o seu melhor filme, o personagem Mr. Hulot volta nessa estória vagando pelas ruas de uma Paris simétrica, cinza e consumista. Apesar de ser um personagem que aparece a todo momento na narrativa, nesse filme, Tati parece descentralizar Hulot e abrir espaços para outros personagens que acabam se ligando de alguma forma e, às vezes, mais de uma vez durante o longa.

Os personagens mais interessantes nesse filme são os americanos, aqui temos um julgamento de valor de uma futilidade consumista idiota desse povo. Um grupo de mulheres que visitam a capital francesa e um empresário vindo dos Estados Unidos são os personagens mais ridículos que já vi. As mulheres visitam uma Paris que muito se assemelha a uma Nova York para comprar produtos do próprio país, essa situação ridícula parece ser uma aversão do próprio Tati ao concreto, ao cinza e ao consumo. Podemos comprovar essa afirmação quando vemos pedaços interessantes e simbólicos da cidade refletidos em vidros, aqui ele parece querer dizer: olha, isso é simples, é bonito e é legal!

Outra situação interessante é quando Mr. Hulot visita um ex-companheiro de guerra. Aqui recordei de "Meu tio" quando a irmã do personagem mostrava a sua casa aos amigos. Nessa cena a situação se repete. O amigo de Hulot mostra a casa dele ao homem, clara crítica a ostentação que vê como valor humano bens de consumo. O diferencial entre a cena dos dois filmes, e que fez a cena de Playtime ser mais genial, é o fato do apartamento do ex-companheiro ter uma enorme tela de vidro que deixa visível as pessoas que passam pela rua a sua sala de estar. Esse toque da arte e de enquadramento, já que vemos a cena pelo lado de fora através desse vidro, me fez lembrar vários termos: Big brother, facebook, sociedade do espetáculo, The wall...

Enfim, a filmografia de Tati mostra-se interessantíssima e importante para os estudantes e amantes do cinema. Seu trabalho sonoro e visual contribui significativamente a sétima arte. Sua semelhança com Charles Chaplin não o faz menos original, pelo contrário. Temos aqui um diretor, ator, dançarino e político incrível.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

O Funk é o novo Punk?

Não sei se isso é juventude ou é eterno. Essa inquietação, transformação e medo. Por vezes quero que termine, por outras que nunca acabe. Em boa parte da minha vida poucas coisas entendi, em outras sou leigo e de tantas prefiro o erro e, em consequência, a mudança. Porque ela é sempre bem vinda! Hoje, na minha verdade, a coisa ainda permanece preta, Chico! O Sistema continua falido, mas o prisma sempre bate em alguém e esse alguém se expande. A formação ainda está em pé e contracultura ainda vive por mais que tenha mudado de posição.

O consumo dita o valor de cada individuo (Não é verdade absoluta é senso comum). A propaganda espalha aos quatro ventos os modelos de homem, mulher, criança, adolescente e idoso perfeito. Modelo atrelado a um bem de consumo, consumindo coisas que não precisamos e sacrificamos a vida para tê-las. As pessoas se padronizam e isso é o capital. E os grupos do século XX que bateram de frente com todo o sistema se reconfiguraram. A esquerda se reorganizam junto com os neo anarquistas, punks e hippies. O que permanece é um outro modelo de vida, alternativo ao imposto.

Mas há também quem mudou, não pelos antigos, mas pelo novo. Os velhos deram seus importantes passos, o que precisava era de mais pessoas para alongá-los, mesmo que contrariando os que começaram, mas eles acabaram recuando. Será que o recuo é algo natural do ser humano? O rock acabou?

O que faz aquilo que sempre foi sinônimo de progresso ocupar o lugar que antes lhe reprimia? Se o rock chocava pelas suas roupas, pela sua linguagem corporal, comportamento e pelo som; se lutou pela liberdade sexual, individual e coletiva, o que faz uma geração querer ser elite (intelectual ou financeira), pregar a boa música, julgar pela "moral" e os bons "costumes"? Seria uma inversão dos papéis? Seria conservador ou progressista pedi que esse caráter permaneça intacto? O Funk é o novo punk? Mas a ostentação não é contrário do punk? Deixa pra lá, eu devo tá viajando. Enquanto eu falo besteira, nego vai se matando!



Comentário de autor desconhecido no facebook, nada de citação com credibilidade:
Quando um grupo de pessoas não trata o sexo como tabu, além de ter orgulho do próprio corpo e se divertir com ele, aparece a classe média para chamar esse grupo de vulgar. Para a maior parte da classe média, "vulgar" é tudo aquilo que seja: ou cultura popular e afrobrasileira ou comportamento sexualmente livre, porém exacerbado, sobretudo se relativo à sexualidade feminina... É essa classe média que tenta impor sua visão moralista, historicamente baseada no cristianismo e assimilada mesmo entre os não-cristãos dessa classe, sobre sexo e sobre sexualidade... Não percebem que apenas estão fazendo tudo o que o capitalismo sempre quis: tirar a liberdade das pessoas (sobretudo mulheres) sobre o próprio corpo. Por mim, as adolescentes que se divirtam!

sexta-feira, 26 de abril de 2013

As 10 melhores séries

Parta da ideia de que a verdade não existe e que essa lista é meramente o gosto pessoal, o ponto de vista e a visão de mundo do blogueiro que aqui escreve, que por sinal, vive em constante processo de mudança intelectual e cultural. Em segundo lugar, tente entender que uma lista desse tipo sempre será mutável, afinal o novo sempre vem e o velho está aí para ser descoberto. É por esse entendimento que ao longo do tempo, ao assistir mais algumas séries, modificações serão obrigatórias nessa postagem. O terceiro ponto a ser esclarecido é que no meu entendimento, animações infanto-juvenis e animes não se encaixam no termo série (não que eu não goste, pelo contrário, adoro!). As únicas animações incluídas nessa lista serão as de humor e com conteúdo mais adulto. O quarto e o último tópico de esclarecimento é sobre o local de origem da produção, que não será de relevância alguma, pois qualquer série de qualquer lugar do mundo pode estar presente na lista, mas, logicamente, as produções norte-americanas serão maioria, afinal o país mantém um número maior de séries audiovisuais em comparação com outros lugares do mundo.

P.S. O posicionamento das séries estará de acordo com a preferência do autor, da décima a primeira posição. Eis:

10 - Skins





















Na verdade, Skins tem tudo o que eu gosto de ver na tela. Um drama que envolve adolescentes, sexo, drogas e tragédias, embalados pela melancolia e sotaque inglês. Trata-se de um série de seis temporadas, que possivelmente pode ter sua conclusão ainda este ano em dois telefilmes. A série tem como foco o dia a dia de adolescentes da cidade de Bristol, personagens este que se mantém a cada duas temporadas. Ou seja, nas seis temporadas, a série reuniu três diferentes gerações. Apesar do exagero em retratar temas polêmicos como sexualidade, aborto e tantos outros assuntos, a produção se afasta totalmente da superficialidade de uma Malhação, que considero uma das piores retratações da juventude no mundo.

9 - True Blood


True Blood foi um dos tantos produtos que foram nos apresentados a partir da moda vampiresca dos últimos anos, mas com um grande diferencial: a HBO. A série reúne tudo que um fã de vampiros pode querer: sexo, violência, sangue e ação. Com boas doses Trashs e sensuais, True Blood é uma das melhores produções vampirescas dos últimos tempos. Além, é claro, de fazer uma ótima metáfora sobre preconceitos e religião.

8 - Chaves



















Clássico! Incrível o poder de manutenção desse seriado, parece que não envelhece nunca. Há quase 30 anos sendo exibido no Brasil, a serie é ainda um sucesso absoluto, mantendo bons índices de audiência e sendo o coringa da programação de Silvio Santos. A cultura pop brasileira tem o seu mais forte ícone um personagem do seriado, o Seu Madruga batendo de frente com o tão popular Mussum

7 - The Big Bang Theory




















Além do ótimo texto de Chuck Lorry, The Big Bang Theory é um seriado com piadas das melhores referencias possíveis: o mundo nerd. Todos os personagens são interessantes, mas é importante salientar o talento de alguns. O protagonista Sheldon e a ótima interpretação do ator Jim Parsons e a encarnação de Raj pelo Kunal Nayyar.

6 - The Walking Dead




















Não é só porque zumbis correndo atrás de pessoas seja divertido, The Walking Dead tem mais. Além das ótimas cenas recheadas de adrenalina, o seriado tem sacadas muito interessantes em seu roteiro.  Apesar do baixo rendimento no começo da segunda temporada, a estória do apocalipse zumbi tem rendido pontos de viradas surpreendentes e cenas de ação de alto nível.

5 - South Park




















South Park é uma anarquia de humor. Não há perdão, todo e qualquer pessoa pode ser alvo dos personagens. Um seriado que não pode ser levado a serio devida a sua alta contradição. Ao mesmo tempo que a animação mostra-se politica e crítica, mostra-se também preconceituosa e idiota. A verdade é que South Park é feito para incomodar todos, nisso não há preconceitos, e fazer rir, nisso não há dúvidas.

4 - Alice




















Eis a única série brasileira na lista. Infelizmente não há tantas produções brasileiras desse estilo, a Globo e sua estética não conseguiram me agradar em nenhuma criação, apesar de eu sentir uma enorme curiosidade com Capitu (Luiz Fernando Carvalho, 2008). Já com a HBO é outa história, segundo o boca a boca da internet, as séries do canal tem boa repercussão e mantem uma qualidade de bom nível, como é o caso de Alice. Com a recente lei da TV paga, a tendencia é que a produção aumente e mais séries de qualidade estejam presentes na produção nacional, as emissoras já estão investindo. 

3 - Friends




















Além do ótimo texto, que é o alicerce de qualquer sitcom, Friends tem uma mistica envolvente. As relações humanas são a principal temática do seriado, que narra o cotidiano de seis jovens adultos e suas vidas pessoais, profissionais e amorosas. Cumpre a pretensão de ser engraçado e avança na construção dos personagens e nas investidas dramáticas sobre o amor e a amizade que recheiam a narrativa. Uma última qualidade que prova o diferencial e qualidade da série é a capacidade do produto em causar identificação do público, característica que deposita veracidade a qualquer produto audiovisual.

2 - Breaking Bad




















Puta texto! Não há outra forma de dizer o quanto o roteiro de Breaking Bad é sensacional. A começar pelo primeiro episódio, que ao meu ver, é o melhor premiere que existe. Não só o roteiro como direção é perfeita, na verdade, todas as questões técnicas da série são mais que satisfatórias. Fotografia, direção de arte e produção se unem a uma direção sensacional, com enquadramentos bem elaborados, movimentos de câmera impressionantes e manutenção de uma tensão que começa no primeiro episódio e que se terminará no final da série, que se junta ainda com um roteiro bem elaborado, amarrado, com bons ganchos e finais impressionantes. 

1 - Game of Thrones





















George Martin mostrou ser o melhor contador de estórias com a série de livros As crônicas de Gelo e Fogo. Quando a HBO somou forças ao velhinho, não poderíamos esperar nada menos que Game of Thrones. A série mantem uma fidelidade razoável com os livros, mas a sua adaptação mostra-se eficiente e madura trazendo expectativa aos fãs que já leram, além de dar um ótimo aspecto visual a estória.

Ainda preciso ver muitas séries para que essa lista não seja drasticamente mudada, o meu mundo seriado ainda é pequeno, mas pretendo assistir ao máximo que puder. A vida é muito curta para tanto filme, tanto livro, tanta música e tantos seriados, mas farei o meu melhor. Enfim, nos próximos meses as seguintes series serão analisadas: Black Mirror, Anos incríveis, Capitu, Vikings, The following, Sherlock, Star Trek, Dexter, The Borgias, The Tudors, Family Guy, Roma, Boardwalk Empire, Band of Brothers, The Pacific, The Sopranos e The Newsroom.


INDIQUEM AS SUAS SÉRIES FAVORITAS!

domingo, 30 de dezembro de 2012

A Árvore da Vida (2011)


É uma imensa responsabilidade falar de A Árvore da Vida, mas, ao mesmo tempo, uma reflexão obrigatória para todos os que tiveram oportunidade de assisti-lo. O filme de 2011 de Terrence Malick divide opiniões.  Parece não existir meio termo, há os que acham um filme chato e metido a intelectual e os que o reconhecem como uma das grandes obras dos últimos tempos. Eu fico no segundo grupo. Não, eu não sou superior a ninguém por ter amado o longa, nem tampouco um metido a intelectual, se assim definem uns aos outros, alguns membros do time do ódio e do time do amor ao filme.

Cinema não é só entretenimento, acima de tudo é uma arte e é um grande engano ir ao cinema pra vê apenas o que gosta. Por exemplo, As vantagens de ser invisível é um tipo de coisa que eu gosto de ver, já Violência Gratuita é o contrario, mas não posso deixar de reconhecer que o segundo filme é melhor e mais importante do que o primeiro. É essencial se desprender do egoísmo do gosto para analisar bem uma obra artística.

As pessoas que não entenderam, em todos os sentidos, o filme (e é compreensível), em sua grande maioria, são pessoas providas de uma inocência cinematográfica ou de um vício hollywoodiano e até de uma visão crítica sobre esse tipo de estética. Mas o que mais incomoda nas críticas negativas é o argumento de que o filme não tem estória. Em primeiro lugar, cinema não precisa contar estorinhas com começo, meio e fim. Glauber Rocha, um dos diretores brasileiros mais reconhecidos mundo a fora, não concentrava os seus filmes diante uma narrativa clássica, e sim na sequência de imagens que montavam alegorias para sua crítica social. Em segundo lugar, apesar da abordagem filosófica, o filme conta sim e claramente uma estória. Na verdade, uma estória bem mais próxima do real do que a maioria dos filmes por aí.

O roteiro do filme começa em um futuro onde os pais da família central da estória recebem a notícia do falecimento de um dos filhos. A partir daí e depois de uma longa cena de sofrimento dos personagens, o filme divaga em imagens da natureza e do universo, depois vai ainda mais longe ao tempo cronológico e chega a outro filho em sua fase adulta ainda sofrendo com a morte do irmão. Depois o filme volta à infância dos filhos e a vida da família em conjunto, todos os seus problemas e felicidades.

A Árvore da Vida é um filme diferente para cada pessoa. Lembrou-me muito 2001, uma odisseia no espaço, do Kubrick, que em determinada entrevista sobre o filme de 68, questionado sobre a interpretação do longa, ele falou que o seu filme servia para abrir questões e não solucioná-las. Descrição esta que se encaixa muito bem para o filme em discussão.

Na minha visão, o longa se baseou no questionamento da nossa existência no mundo, sobre a teoria da criação do universo por Deus e da teoria do evolucionismo proposto por Darwin, do relacionamento entre os seres humanos, sobre os sentimentos de amor e ódio e o complexo que é ser um ser racional e não saber de quase nada sobre o que gente realmente é, se realmente somos alguma coisa.

Apesar das inúmeras críticas considerando o filme como um pró-criacionista, no meu entendimento, tendo a ideia de que a obra é única para cada individuo, o longa se mostrou muito mais aberto ao questionamento. Não posso deixar de dizer que o filme abala o ateísmo, mas não por mostrar uma verdade absoluta e sim por abrir questionamentos. Um ponto interessante é a relação do filho, personagem principal, com o seu pai, que metaforicamente pode representar o ser humano e a relação conflituosa com uma divindade. Além dessa situação temos ainda vários outras relações entre a família que representam metáforas existenciais muito interessantes.

Esse filme teve forte impacto na minha vida, falo filosoficamente, esteticamente e artisticamente. Me fez ficar madrugadas sem consegui dormir, pensando sobre o que é arte e sobre o que é vida. Mesmo assim, a obra, não fez eu me esclarecer nessa neblina que é o ser humano. Eu ainda continuo no escuro e sendo um humano ignorante, mas agora, talvez, mais questionador. Vale muito a pena ser assistido!